Só pode ter sido praga, ou sei lá o quê. O que sei é que essas infelizes não param de me perseguir.
No começo não dava muita importância, afinal eram só umas pobres lagartixas.
Nunca simpatizei com a cara das coitadas, mas desde que meu espaço fosse respeitado (uns cinco metros) não via muito problema na visita ainda que descortês.
No entanto a coisa tomou outro rumo, o que era apenas algumas aparições noturnas à procura de insetos, tornou-se uma incoveniência, as malditas tiraram a ideia absurda (não sei de onde), que eram "bem-vindas" e começaram a infestar meu espaço, aparecendo a qualquer hora do dia nos quatro cantos da casa, e por cima trazendo pai, mãe, irmãos, primas e a raça toda. Se não tomar providência logo, logo isso aqui vai virar um pântano, e se eu não as expulsar antes, eu que terei que procurar outro habitat.
Sou a incomodada, mas me recuso a sair. Já fui vitimada demais por elas. Só em lembrar o que elas já me fizeram, tenho a sensação que vou desmaiar (não é frescura) imaginem aí uma lagartixa enorme com as garras gigantescas grudadas em seu braço, pois foi assim a primeira vez que elas me atacaram, fui pegar um tapete que estava sobre o muro e o que encontro lá? A infeliz. E como não bastasse tamanha insolência em deitar sobre o tapete, ainda veio pra cima de mim, enfiou suas garras em meu braço e para meu desespero não tinha ninguém em casa, gritei feito uma louca (não queiram imaginar), esperando que alguém viesse me socorrer. Os vizinhos já estavam prestes a chamar a polícia achando que fosse algum bandido que havia invadido a casa, quando finalmente consegui desvencilhar-me da minha adversária. Passado o vexame quase morro de vergonha (ainda dizem que elas são inofensivas) e por pouco escapei.
Pensa que o ataque parou por aí? Engana-se. O ataque seguinte foi horrível, e o pior de tudo, nem direito a grito eu tive. Estava em uma reunião no salão duma igreja quando ela sutilmente apareceu, e eis que em meio a dezenas de pessoas quem ela resolve atacar? Um doce pra quem acertar. Quem mais poderia ser? EU! Pois dessa vez quase morri mesmo, ela caiu do teto sobre minha coxa esquerda e com toda sutileza foi descendo (sem a menor pressa e eu quase entrando em desespero), descendo pela perna até chegar ao chão. Eu, já gelada, roxa, amarela, verde e sei lá mais que cor, senti um certo alívio, mas a danada não se deu por satisfeita, deu meio volta resolvendo fazer outro percurso, dessa vez sobre a perna da cadeira, foi subindo com a maior calma até encontrar a parede. Finalmente pude respirar, minha colega que estava ao lado, não sabia se ria da minha cara ou se demonstrava solidariedade, na dúvida ela perguntou como eu contive o grito, até hoje não sei responder.
Sobrevivi aos ataques, constatei realmente que elas não matam (pelos menos sai viva), mas veio o terceiro e mais horrendo ataque: era manhã de um domingo, ou segunda sei lá, sei que era manhã, lá estava eu esfregando o chão com todo o capricho, cantarolando enquanto as unhas iam se quebrando, e eis que de repente lá surge ela, do nada, aliás, do telhado e paf em minha cabeça, na confusão misturou-se em meu cabelo e dessa vez não gritei - também não fiquei calada (desatei a chorar) foi desesperador...
Sobrevivi. Até o momento não houve mais ataques, mas elas estão sempre à espreita, esperando um vacilo meu.
O que antes era apenas antipatia por esses seres, agora tornou-se ódio mortal.
Agora me digam, eu tenho ou não motivos suficientes pra detestar esses seres?
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