Já dizia Camões lá no século XVI, "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades" E hoje, o que mudou? Apenas o tempo e as vontades? Qual é a face desse século XXI? O que tantas transformações e evolução nos trouxe de bom? Ora, é inquestionável que as transformações ocorridas ao longo dos séculos passados, tiveram impacto positivo em nossas vidas. Isso é notável na maneira como vivemos hoje, no acesso a tudo que nossos bisos e tataros não tiveram, na melhoria de vida, nos avanços tecnológicos, na ciência, nos direitos conquistados, enfim, em tudo que possamos imaginar. Uma maravilha essa evolução!
Mas como nem tudo são flores, há o outro lado, o lado que, talvez devido ao deslumbre diante de tanta liberdade acabou deixando de ser apenas pontos negativos para tornarem-se a face podre deste século. Isso mesmo, face po-dre. Acaso o uso que as pessoas fazem da tecnologia (que está aí a nosso dispor, com propósito de melhorar a vida dos seres humanos, em todos os aspectos cabíveis) para lesar, dar golpes, e não apenas isso, mas também para aperfeiçoar e criar novas armas de destruição, isso não é podridão? Acaso, o mau uso da tecnologia não está criando uma geração de crianças incapazes de pensar por si mesmas e de estabelecer relações com os outros? Caberia tantos acasos nessas linhas, mas vou direto ao ponto, o que me fez começar a escrever esse post, foi uma cena nefasta, que não apenas eu, mas milhares de pessoas presenciam diariamente, cena essa que de tão comum as pessoas acham "natural". pois eu não acho, e nunca vou achar, me recuso a conformar-me com tais situações. Deixando de ser prolixa, descrevo tal cena: Era início desse dia que finda, sendo mais exata, cerca de 5:50 da manhã, quando avistei crianças vindo de uma festa. Crianças essas de cerca de 10, 11, 12 anos que provavelmente passaram a madrugada em meio à pessoas alcoolizadas, drogadas e sabe Deus mais o quê. Pais permissivos, ou negligentes talvez. Absurdo eu considerar essa cena nefasta? Talvez seja se você já se acostumou a ver tais coisas e aceitá-las naturalmente. Se acha natural uma criança ou pré-adolescente ingerir álcool, frequentar ambientes de adultos, ter "atitudes" de adulto quando sequer sabem o que é a vida. Eu não, volto a repetir, considero tal cena infeliz, e não me conformarei com tal absurdo. Tanta liberdade, resulta numa inversão, senão perda de valores. Crianças hoje não têm mais infância. Fico chocada, porque um dia fui criança, porque tive uma infância, onde meus amigos não eram virtuais, onde brincávamos de verdade e sem maldades, meninas brincavam de boneca, não tinham namoradinhos tão precocemente, ouvíamos estórias à noite sempre contadas pelos mais velhos, onde ficávamos admirados e assustados com os "causos",onde os desenhos animados não incentivavam a violência nem fazia apologia a qualquer indecência, assistíamos Bananas de Pijama, não essas "animações violentas", assistíamos Chiquititas, não Rebeldes. Nossos brinquedos eram de crianças, nossas roupas eram de crianças, nossas brincadeiras eram de crianças, não esses produtos de gente grande fabricados em miniaturas. Nossas tardes passávamos numa biblioteca, não numa lan house, fazíamos piquenique, brincávamos de roda, sete-cacos, esconde-esconde, capitão, amarelinha... era INFÂNCIA, não um ensaio pra quando fossemos adultos. Fico triste com tais transformações, porque minha sobrinha mais velha não sabe o que é brincar de amarelinha, nunca ouviu falar em sete-cacos, tampouco de cantiga de roda. Ela não sabe o que isso, que dirá meus filhos?
É triste constatar que a infância foi perdida,( talvez isso até explique tantos problemas psicológicos deste século) mas é a grande verdade. Você que teve o privilégio de viver sua infância nos anos 90 para trás sabe do que estou falando. Se não foi, não apenas lamento, mas também vos digo, não vale a pena ser precoce, essa situação descrita não pode ser mudada, é a mudança dos tempos, a sociedade impôs esse modelo horrendo, mas quanto a outros aspectos, não se deixe ser manipulado, não deixe esses "valores" te corromper, e como disse Camões "e afora este mudar-se cada dia, outra mudança faz de mor espanto". Pois bem, não tenha medo de espantar-se. Tenha medo de acostumar-se.